Arte

Recentemente fui à bienal de São Paulo, e vi uma composição de que gostei muito.

A tal parede laranja na bienal.

Olha como se você vai indo da esquerda para a direita você começa achando que isso vai ser uma parede de quadros abstratos. No terceiro quadro as alturas e posições mudam, e a incongruência já te deixa com o pé atrás. O quadro baixo e o quadro alto criam um ritmo sinestésico, e você chega no clímax da música no sol do meio. Os tentáculos se expandindo no silêncio criado pela mudança para a cor da parede de repente fazem você ter que parar de ler da esquerda para a direita: não é mais uma parede de quadros, a parede inteira é um quadro.

O artista é quem pôs os quadros nessa disposição? Ou é quem pintou os quadros? São a mesma pessoa? Importa?

O efeito me deixou hipnotizado por um bom tempo. O espaço virou arte para mim, que me pareceu algo bastante interessante e esteticamente desafiador.

Mais tarde contei a experiência para um amigo formado em artes, o brilhante Karol. Para o Karol esse conjunto não teve muito impacto. Composições como essa já foram feitas várias vezes de formas diferentes. Beleza e composição são discussões antigas em arte, e não são interessantes o suficiente para um espaço como a bienal, que deveria levantar questões correntes do debate acadêmico.

(ou pelo menos para o Karol que mora dentro da minha cabeça. Eu não o consultei enquanto escrevia isso, não tome isso como a opinião dele de fato!)

Karol viu mais valor em trabalhos com mensagens políticas mais reais, que mostram grupos afastados e sub-representados em arte. Trabalhos que mostrem a forma como instituições escolhem mostrar culturas diferentes.

Essas esculturas estavam bem na porta, lugar de honra. Bem evocativas. Essa tirada por fotógrafos profissionais. Créditos: Levi-Fanan

Ficamos umas boas horas trocando ideia, tentando identificar a diferença nas nossas visões. Fomos e voltamos entre o que merece atenção, e o que é boa arte, o que conta como arte, se a organização dos quadros em si deveria ser arte.

No final, não chegamos a nenhuma conclusão clara (como é de lei para conversas de bar).

Minha ideia nesse artigo é montar uma definição de valor de arte para conseguir pôr em palavras o meu desentendimento com Karol.

Vou começar dando minha definição de arte. Partindo dela vou separar dois elementos que conferem valor para a arte. O peso diferente dado para cada elemento é o ponto no qual discordamos.

Gostei dessas colunas de carvão na frente do mosaico. Lembra um cortiço, me põe em trabalho manual com altas nuvens de fumaça.

Definições, definições

Vou começar com minha definição de arte:

Um Objeto é arte-para-um-intérprete quando o intérprete o aprecia de forma não instrumental.

O Objeto não precisa ser um objeto físico. Entenda como o "alvo" da arte.

A restrição importante aqui é que a apreciação precisa ser não instrumental. Se não o ato de qualquer tarefa cotidiana vira arte, e isso deixaria a definição ampla demais. Não quero que coisas como ler o manual de montagem de um móvel sejam arte... exceto se você não estiver lendo ele para descobrir como se monta o móvel. A intenção do intérprete não pode ser pré-definida e útil.

Mais uma coisa: a não intencionalidade tem que ser por parte do intérprete, não do artista. A maioria dos artistas tem alguma intenção ao fazer um trabalho, não faria sentido cortar pelo lado deles.

A partir daí, seguimos para...

Como eu meço o valor da arte

Talvez você tenha notado que minha definição de arte não menciona o artista. O artista é responsável por criar o objeto, mas esse é um papel indireto. Como ele não está diretamente envolvido o valor da arte não pode vir do esforço, genialidade, ou inspiração do artista.

Sobram então dois entes na definição, o objeto e o intérprete. Vou falar sobre como meço o valor por esses dois vetores.

O pano através do qual se vê um pano. Parece até vidro, é delicado, flui.

Vetor 1: Quanto o objeto pode ser apreciado

Lembre-se que apreciação é só a ação de observar e criar interpretações, deixar que aquilo brinque com sua mente e seus sentimentos.

Alguns objetos são mais propícios a apreciação que outros. Digo, alguns objetos exigem muito esforço do intérprete para se tornar arte, enquanto outros jorram interpretações.

Exemplos extremos: uma escultura em um museu e uma pedra no meio do campo. Se alguém pôs a escultura no museu, ao visitar você já sabe que tem que ficar olhando, pensando e apreciando. Com uma pedra que eu vi aleatoriamente eu raramente paro para pensar... qualquer coisa.

Digo então que uma escultura tem mais potencial que uma pedra. Quanto mais o objeto convida o intérprete à observação, maior o potencial dele.

Reconhecendo uma crítica imediata que pode surgir aqui, não acho que todas as interpretações e apreciações sejam iguais. Algumas têm mais valor que outras. Vou falar mais sobre o valor das apreciações quando estiver falando de como o intérprete aprecia.

Por hora considere que o potencial do objeto é uma combinação do valor das interpretações que provavelmente vão ser geradas por ele e da abertura que ele dá para o intérprete de criar essas interpretações.

Na minha teoria um objeto artístico tem mais valor quando ele tem mais potencial de interpretação.

Como se fazem objetos com mais potencial

O trabalho do artista é criar objetos com alto potencial.

E ele faz isso de inúmeras formas! Pintando um quadro, atuando em uma peça. Até apontando para um objeto ordinário e dizendo que aquilo é arte, produz-se um objeto com mais potencial.

Se alguém de uma posição de autoridade falar que um objeto tem potencial, o potencial daquele objeto aumenta. Isso acontece porque as pessoas vão parar para prestar mais atenção àquele objeto, e vão estar mais abertas para apreciar ele.

Essa ideia lembra bastante teoria institucional da arte, que diz que arte só se torna arte por causa das instituições de arte. Mas diferente dessa teoria, na minha definição isso não é metafísico nem circular. A instituição dá potencial para o objeto porque ela muda a atenção e o vocabulário em volta dele.

Voltando para o papel do curador em uma exposição, que mencionei lá em cima. Ele também é artista? Na minha definição é claro que sim! Um curador é por definição alguém com autoridade em arte, e ao escolher o objeto cujo potencial ele quer aumentar ele está fazendo o mesmo papel que o artista.

Esse trabalho é muito importante para mim. Como o meu tempo e minha energia de interpretação são limitados, eu preciso de uma entidade na qual eu confie para escolher com quais coisas eu devo me esforçar para interagir.

Isso é muito parecido com a ideia de teoria de sinalização, da economia, que diz que um sistema pode funcionar melhor se os membros do sistema podem sinalizar suas qualidades por meio de uma autoridade (o exemplo clássico é que as vezes você vai atrás de um diploma mais pelo prestígio que ele vai te dar entre empregadores do que pelos conhecimentos que ele te dá). Achei o paralelo bonitinho.

Agora já consigo definir com mais clareza um ponto em que Karol possivelmente ficou desapontado com a tela laranja. Como, diferente de mim, ele é envolvido no mundo da curadoria, ele sabe como funciona o processo de seleção de trabalhos e é mais sensível a essa escolha. Para ele, aumentar o potencial de um objeto com uma mensagem política pouco clara, e com méritos técnicos aparentes meio ultrapassados é um desperdício.

Essa percepção diminui o potencial do objeto na visão do Karol, e esse é o cerne da diferença entre nós dois.

Essas tapeçarias estavam sempre lotadas enquanto eu estava lá. O pessoal gosta de uma tapeçaria.

Vetor 2: Como a intérprete aprecia

Alguns livros que eu leio eu guardo para sempre, ganho mensagens que mudam meu jeito de ver o mundo. Alguns são altamente catárticos e me destroem enquanto eu leio, e fico precisando buscar coragem para virar cada página. Outros são livros Importantes, que eu leio com reverência e tentando entender referências e impacto histórico.

Isso são exemplos de interpretações valiosas. Para organizar, vou quebrar em três termos. Interpretações fortes são as que tem intensidade, reorganização e duração.

Intensidade é o efeito que te faz sentir impactado pela arte. É o arrebatamento, ou a catarse, que você sente. Encaixo aqui todas as sensações imediatas que você tem quando aprecia um objeto. Notar uma referência, perceber que uma peça se alinha com opiniões políticas importantes suas, isso são exemplos de força por intensidade.

Reorganização é o quanto aquele trabalho mudou o jeito que você vê o mundo, quanto você teve que refletir a respeito, quanto você ficou confrontado. Eu separei ele da intensidade porque alguns objetos são perfeitamente capazes de causar uma reação muito intensa, mas que não me desafiam muito (tipo um filme de ação que te faz ficar super tenso).

Por último, duração. Alguns encontros de arte tem um impacto forte em mim mesmo depois de 2, 5, 15 anos de ter passado por eles.

Recapitulando. O valor de uma apreciação/interpretação para a intérprete vem da Intensidade, Reorganização e Duração da interpretação para ela.

Esse desafia um pouco o que é quadro. Acho que tem um significado importante nos panos estarem postos por cima delas, e caídos no chão, mas não tenho vocabulário nem repertório para chegar lá.

Transmissibilidade

Algo que me preocupou enquanto eu escrevia essa definição é que ela é toda muito individual. Uma pessoa pode ter uma experiência que muda a vida dela apreciando uma folha enquanto brisando de cogumelo. Isso é razoável, dado que o ato de apreciar arte é algo muito pessoal.

No entanto, eu fiquei incomodado porque me parece que uma interpretação que eu possa explicar para outras pessoas e que também vai afetar elas com força é mais valiosa do que uma unicamente pessoal.

Mais, muitas vezes se eu tiro de um livro uma interpretação e uma amiga minha tira uma parecida, depois conversando a respeito nós dois concordamos que é uma interpretação possível e poderosa. Nesse caso eu gostaria que a interpretação fosse ainda mais valiosa, porque existe um grande valor em arte que pode tocar muitas pessoas.

Pensando em resolver esse problema eu introduzo a ideia de transmissibilidade.

Digo que uma interpretação de uma observadora é transmissível quando um observador chega em uma interpretação suficientemente próxima da primeira diante de um objeto semelhante. A transmissibilidade é maior se a observadora e o observador são independentes.

O ponto no qual eu fiquei mais reticente nessa definição é a noção de que os observadores devem ser independentes. Inicialmente eu tinha isso como parte necessária para a transmissibilidade, mas resolvi deixar facultativo.

Essa também de fotógrafos profissionais, tenho uma foto dela mas com gente demais para apreciar (Levi Fanan / Fundação Bienal)

Veredito

Considero então que meu desentendimento com o Karol vem de dois fatores. Primeiro, como já falei, da maior compreensão dele do processo de curadoria e na amplificação de potencial do objeto.

Depois, talvez da falta de transmissibilidade da ideia que eu vi na composição laranja. A essa altura já estou escrevendo sobre a parede laranja há duas semanas, então sua interpretação já tem uma força para mim provavelmente desproporcional a que ela terá para a maioria das pessoas.

Gostei dos panos de vaquinha. Gostei que você pode andar entre eles, bem pertinho, apreciando texturas pequenas.

O campo de batalha cultural

Se eu acreditar que uma interpretação que hoje em dia é vista como valiosa não é tão rica, eu posso tentar diminuir ela na mente das outras pessoas.

Para fazer isso, eu posso apontar que ela é simples e banal, tentando diminuir a força da interpretação para as outras pessoas. Eu posso mostrar que existem outras interpretações mais plausíveis e fortes. Eu posso falar que a escolha do objeto está errada, e que o potencial do objeto não é tão alto, que essa é uma interpretação muito pessoal.

Quando eu vou a público falar essas coisas, eu estou tentando por mais valor na minha interpretação. Na vida real, intérpretes influentes lutam pela escolha da interpretação mais poderosa. Conforme uma interpretação vai emergindo como vitoriosa vai se formando uma narrativa (A narrativa) cultural.

Essa ideia é divertida para mim porque põe ênfase nos meios de comunicação e nas conversas que temos sobre arte. Ela parece relevante para os tempos de mais comunicação de agora, e eu gostei de ficar refletindo sobre ela.

Interessantemente, nem toda interpretação que vence é a que seria mais valiosa. Na prática você precisa de uma interpretação que seja forte, transmissível, e que tenha bons advogados!

Os quadros grandes são quase sem graça, mas a escala de um quadro grande para mim, que não estou acostumado, sempre causa um espanto.

Uma última ressalva

Acho importante frisar que todas essas definições não são postas em pedra. Eu montei elas com o objetivo de entender porque eu via valor em um quadro e meu amigo não.

Definir o que é arte para todo mundo é um objetivo meio fútil. Existe e já existiu muita gente, e eu não sou platonista, então não acho que exista um ente metafísico da arte, estética ou beleza a ser definido.